O que podemos aprender com os spammers
Estava lendo o blog DoshDosh (que nunca sei se é escrito por um cara ou por uma mulher) e deparei-me com o excelente texto What We Can Learn from E-mail Spammers, que veio bem ao encontro de algo que eu já tencionava escrever por aqui. Por isso resolvi adaptar o que li por lá para o que você vai ler a seguir. Que fique bem claro que aquele texto serviu como inspiração para este, e dele aproveito algumas idéias; tire um tempo e leia o texto original (em Inglês) para saber mais sobre o assunto.

O negócio dos spammers tem que dar resultado, ou eles já teriam parado de fazer suas necessidades digitais em nossas caixas de entrada. Não me refiro ao Spam do Gafanhoto, mas sim daqueles que ficam tentando nos convencer a comprar remédio para impotência, calmantes, ou então nos fazer acreditar que realmente ganhamos sem jogar na loteria de algum país da Europa, ou de qualquer outro continente.
Os spammers sabem que estão enganando as pessoas com sua propaganda (mesmo que não se trate de tentativas de golpe ou roubo de senha, mas sim de algum produto legítimo), sabem que são mal vistos, que são completos anônimos para as milhares e milhares de pessoas que receberão seu esterco eletrônico em suas caixas postais, que tampouco sabem quem são os destinatários pra quem enviam, mas ainda assim continuam despachando suas mensagens não solicitadas, e com um nível de “acerto” (seja ele qual for) muito mais alto do que minha mente possa conceber.
Como, então, fazer com que as pessoas leiam essa porcaria toda, acredite no lixo, e clique nos links para comprar os produtos sendo oferecidos (tratemos aqui apenas dos spams “do bem”)?
Simples: criando um vínculo emocional com o target, o que pode ser feito desde ao mexer com sua vaidade ou autoimagem, até gerar empatia por usar nomes conhecidos no texto: segundo o blog DoshDosh, o povo pode não saber quem raios é Janio Sarmento, mas com certeza sabe quem são Mulher Melancia ou Angelina Jolie (ok, o exemplo da Mulher Melancia foi idéia minha). Segundo este mesmo blog, 2,28% dps e-mails enviados em julho de 2008 continham o nome da Sra Brad Pitt no campo assunto (não sei de onde vem essa estatística).

Claro que estas técnicas são tão mais eficientes quanto mais néscias forem as pessoas que receberem a mensagem: o senso de “familiaridade” causado pelos nomes de celebridades é poderoso. É a mesma razão pela qual os spammers costumam inventar nomes de instituições muito parecidos com os nomes de bancos verdadeiros (isso quando não tentam reproduzir o nome, mas no máximo mimetizam, graças à indisfarçável ignorância que parece ser marca registrada de spammers golpistas).
Da mesma forma, spammers adoram usar efemérides recentes como iscas. Eventos como eleições, olimpíadas, conflitos entre nações, o final da novela, o começo da novela, a cena “importante” da novela, a sem-calcinha da semana, enfim…

Não se sabe de onde tiram, mas o fato é que os spammers têm alguma sorte de conhecimento sobre o funcionamento da psicologia humana (porque — ao menos por enquanto — jumentos, mulas, salsinhas e amebas não lêem no computador, não literalmente). Eles sabem que precisam atiçar o interesse do seu target com um senso de familiaridade forçado, comparações, ou oferta de vantagens exclusivas — como “seja o primeiro a ver o vídeo da celebridade tal dando para o fulano do Big Brother”.
Esta análise toda, que ficou bastante maior do que eu esperava, me faz pensar na enxurrada dos blogs que se dizem de “entretenimento”, que outros blogueiros chamam de “caça-paraquedistas”, e que na verdade são um ninho de conteúdo inútil acerca de escândalos envolvendo celebridades.
Embora qualquer um, inclusive eu, embora eu não seja qualquer um, possa criticar este tipo de blog, ninguém tem o direito de julgar o que eles fazem e dizer que é errado ou prejudicial a quem quer que seja. Faz parte da seleção natural do meio que os mais fortes sobrevivam, e quem não tiver capacidade para estabelecer-se sem temer a “concorrência” deste tipo de empreendimento deveria repensar seriamente sua decisão.

Contudo, é dever de qualquer um que honre o que a Natureza enfiou dentro de seu crânio analisar o que consome e, em se tratando de blogs, o que lê.
E é dever de quem tenha mais de dois neurônios analisar as técnicas e o conteúdo de muitos blogs que se vêem por aí, comparando ao que fazem os spammers convencionais, de e-mail. Certamente esta pessoa (a de três ou mais neurônios) não tardará a ver que a índole de quem faz spam por e-mail não tem que necessariamente ser pior do que a de quem escreve blogs sobre a celebridade tal nua ou na capa da revista masculina.
Mas é claro: esta é apenas a minha opinião.
(Crédito das imagens: http://www.sxc.hu/)



Por Janio Sarmento em setembro 16th, 2008 | Tags: 
setembro 17th, 2008 às 8:24 am
Explico: nós lusófonos não nos interessamos por SPAM, SCAM, trojan, drive-by download, phishing, etc. No máximo temos um certo interesse fisiológico quando somos envolvidos por um bixo destes e queremos nos livrar dele.
Lusófono, talvez por força do seu aculturamento secular, gerador do sentimento de inferioridade genotípico, é tímido, antiliterário, antidebatedor e… tímido, tímido, tímido.
Isto o gênero lusitano, nós, não gostamos de tecer reflexões profundas sobre coisa alguma. Num país qualquer com um pouquinho menos miséria intelectual do que o nosso, digamos a Polônia, este teu post já teria gerado dezenas de comentários. No Brasil, este tipo de artigo é pérola reluzente entregue aos porcos.
Vamos aos ganhos dos Spammers: eu também quero o meu cetro porque tenho uma catarata que me deixa entrever alguma coisa, não com a mesma argúcia do mestre Janio. Os Spammers profissionais porque todos os dias se conectam na rede milhões de novos internautas. Apesar de, para nós, seus golpes serem infantis, não são caolhos reis que eles querem, mais sim incautos que estão chegando hoje cheios de inocência.
Então, só nos resta continuar despejando as nossas iriscidentes pérolas no chiqueiro, na esperança que um dia frutifiquem na mente lusitana avessa à reflexões.
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